Nhô Caboclo

Nhô Caboclo foi um notável artista popular pernambucano, dentre tantos outros oriundos deste Estado onde a arte popular ou erudita “brota” por todos os seus rincões. Porém, a arte de Nhô Caboclo é única; não se parece a nada com arte de outros artistas do seu tempo. O artista nasceu Manuel Fontoura, mas foi como Nhô Caboclo que se tornou conhecido. Ele nasceu em uma aldeia Fulni-ô no município de Águas Belas, agreste pernambucano, a 300 quilômetros do Recife. A data exata do seu nascimento não é sabida, mas estipula-se que tenha ocorrido na primeira década do século XX. Sempre fez mistério da sua origem; era mestiço e se considerava “caboclinho”, índio não. Foi criado na zona rural de Garanhuns até se mudar para o Recife.


Manuel Fontoura, o Nhô Caboclo. Foto autoria desconhecida.

Quando menino, Nhô Caboclo, como muitos outros artistas populares pernambucanos, se aventurou a fazer objetos de barro; inclusive esteve com o Mestre Vitalino no Alto do Moura em Caruaru. Depois se dedicou à talha em madeira. Entretanto, foi com a madeira, com o metal e com as folhas de flandres que desenvolveu sua obra e que o fez ser tão conhecido no mundo da arte popular brasileira. [...] Antigamente eu fazia talha, mas muita gente pegou a trabalhar igual, aí eu deixei pra ser diferente dos outros. Esses que fazem talha, pra mim, são apenas uns grandes desenhistas em corte, dizia Nhô Caboclo. Ele costumava dizer que gostava de peça que se movimentasse, “que bulisse, peça valente, peça braba”. Das peças de barro ele dizia que pareciam mortas: [...] Não se faz um lutador de espada, de barro; não se faz uma engenhoca, engrenagem a vapor pra trabalhar no vento.


Nhô Caboclo, equilibrista, ferro, madeira, tecido e penas. Acervo do Museu do Homem do Nordeste (Recife). Reprodução fotográfica autoria desconhecida.

Os instrumentos de trabalho de Nhô Caboclo eram todos “fabricados” por ele mesmo: facas velhas e enferrujadas se transformavam em estilete, tampas de latas se transformavam em hélices para seus cata-ventos. Tudo era fruto da inventividade e imaginação do artista. [...] Eu não imito ninguém. Tudo o que eu faço é carcatura minha mesmo, as carcaturas que eu quero fazer. Antigamente eu prinspiei a fazer um piscuí de acubagem: uma pecinha morta, que não tinha graça. Depois eu peguei a fazer peça manual pra trabalhar no vento, com um corta-vento, ligado a um vaivém, do jeito da máquina do trem que locomove uma elce. Aí a elce trabalha e em tudo que o vaivém tiver enganchado tem de bulir: todo mundo trabalhando. Depois disso, prinspiei a fazer a roda-d’água: a caçamba enchia de água, ficava pesada, aí as máquinas tinham força pra puxar um dínamo e moer a cana.

Nhô Caboclo, barca, madeira, ferro, flandre e penas. Acervo do Museu Casa do Pontal (Rio de Janeiro). Reprodução fotográfica autoria desconhecida.

Segundo alguns críticos, “Nhô Caboclo demonstrava preocupação com as estruturas da ordem e da desordem, da sujeição do homem, da sua violência e da sua valentia”. Ele encontrava nas coisas ligadas ao mar a inspiração para sua obra, apesar da sua origem ser agreste. Das suas peças mais emblemáticas destacam-se o navio de guerreiros e o navio de escravos acorrentados. Inventou linhas temáticas, nas quais se destacam os torés e os rachos. Nhô Caboclo gostava de usar a cor vermelha em suas peças, que sobre o preto lhe dava destaque, assim como costumar usar penas de aves; algumas delas se transformavam em adornos de cabeça do seus personagens. [...] Não gosto de fazer peça moderna, inspirada em outra, bem carcaturada, bem copiada, que a gente fica sem saber se pode dizer que é uma escultura ou um marnequim. Peça muito carcaturada é marnequim que é pra botar em alojamento de material de pano, esses que a pessoa faz o vestido da mulher e bota ali pra demonstrar a venda. Não gosto de coisa de loja. Gosto de trabalhar peça pra museu: museu de matuto. Peça tem de ser matuta: peça ruta que tem mais valor que a moderna. [...] Minhas peças têm história. Gosto de fazer peça de penas e guerras. É muita luta e o derradeiro a ficar vivo sou eu mesmo.


Nhô Caboclo, navio de guerreiros, madeira e flandre. Reprodução fotográfica autoria desconhecida.

As obras de Nhô Caboclo fazem parte de importantes coleções particulares e de importantes museus brasileiros, como o Museu do Homem do Nordeste (Recife), e o Museu Casa do Pontal (Rio de Janeiro).

Nhô Caboclo, barca, madeira, ferro, flandre e penas. Acervo do Museu Casa do Pontal (Rio de Janeiro). Reprodução fotográfica autoria desconhecida.

O artista faleceu em 1976 em Recife.


Nhô Caboclo, equilibristas, madeira e ferro. Reprodução fotográfica autoria desconhecida.

Nhô Caboclo, título desconhecido, madeira, penas, ferro e flandre. Reprodução fotográfica autoria desconhecida.


Nhô Caboclo, racha, madeira. Coleção particular (Recife-PE), reprodução fotográfica autoria desconhecida.

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