Antonio de Dedé

Antonio Alves dos Santos herdou do pai Dedé Lourenço o apelido pelo qual é conhecido no mundo da arte popular brasileira. É o filho mais velho de um total de cinco que teve o casal de agricultores Dedé Lourenço e D. Santina Alves de Oliveira. Ele nasceu em 1953 no município de Lagoa da Canoa, interior do estado de Alagoas, a 150 km de Maceió. Desde criança, Antonio de Dedé acompanhou seu pai no trabalho na roça. Não teve tempo de freqüentar a escola. Casou-se ainda muito jovem com Maria Aparecida dos Santos (in memoriam), com a qual teve nove filhos. A região onde viveu com a família é de clima seco e quente, cuja principal atividade econômica é a plantação de fumo. Lagoa da Canoa é também a terra natal de outros importantes artistas populares como Raimundo Batista e João da Lagoa.


 Antonio de Dedé. Reprodução fotográfica TV Cultura.

A arte de Antonio de Dedé, apesar de ter sido “descoberta” no âmbito da arte popular há poucos anos, remonta à infância. Começou a fazer suas peças aos oito anos de idade. Fazia seus próprios brinquedos de madeira e lata e os vendia pela vizinhança. Depois começou a receber encomendas dos terreiros de umbanda próximos: Os bonequinhos, era assim: chegava uma pessoa que trabalhava nessas casas de mãe de santo e “ah, faz um bonequinho pra eu botar lá?”, aí eu fazia. Fazia Saravá, Ogum, Preto-Velho. Fazia. E eles levavam pra botar lá. Só que pagavam. Eu não fazia de graça não, conta o artista.

Antonio de Dedé, Sagrado Coração de Maria, madeira policromada. Reprodução fotográfica Galeria Pontes (www.galeriapontes.com.br), São Paulo, SP.

Antonio de Dedé contava que sua “descoberta” no mundo da arte popular se deu muito naturalmente e em dois momentos distintos. Desde muito tempo suas peças eram expostas em uma estante na sala de casa; as pessoas que passavam por ali sempre davam uma “esticada” para ver o que tinha lá e se deparavam com suas peças. Sua fama foi correndo pela vizinhança até que um dia um galerista de Maceió, tendo ouvido falar dele em uma visita à Lagoa da Canoa, bateu à sua porta: Aí ele chegou: “o senhor é o Antônio de Dedé?” eu disse: “sou sim, senhor.” E ele: “rapaz, eu vim à procura do senhor. E atrás de mim vem um bocado de gente que está rodando aí.” Eu digo: “ah, mas o senhor encontrou foi agora! O que deseja?” “Eu vim aqui pra saber se o senhor tem condição de fazer umas peças pra mim. Se você é interesseiro de fazer umas peças.” Eu disse: “que peças?” E ele: “peças de artesanato. Fazer escultura de madeira.” Aí eu digo: “ah, faço sim.” “Tem alguma coisa pra me mostrar aí?” Aí digo: “aqui tem umas amostrazinhas aí, só não sei se você agrada.” Aí ele pegou, mas, quando ele viu, já escolheu logo. Ele disse: “essa daqui já vou comprar. Já dá pro meu trabalho.” Eu disse: “ já?” Ele disse: “É. Tem como o senhor fazer melhor?” E eu: “tem. Faço melhor. Faço do jeito que o senhor quiser. Faço melhor, faço menor, faço maior.” E ele disse: “ah! É dessas que eu quero. Faz maior?” “Faço.” “Pois tá certo, vou levar essa”, contava Antonio. O artista e o comprador mantiveram um “contrato” de exclusividade durante algum tempo. Segundo o artista, o preço era baixo, mas compensava porque se tratava de uma venda regular. O acordo com esse comprador foi rompido pelo seu sumiço por vários meses, deixando a produção de meses “encalhada”. A segunda “descoberta” foi feita por um casal de galeristas residente em Maceió: Dalton Costa e Maria Amélia. O encontro com eles se deu mais ou menos da mesma forma que o primeiro, assim como o acordo de venda estabelecido entre eles. Na galeria do casal em Maceió há um amplo acervo de peças de Antonio de Dedé; ali essas peças foram sendo não somente comercializadas, mas também foram sendo amplamente divulgadas entre os visitantes. Esta divulgação passa pela inserção do nome de Antonio de Dedé no mundo da arte popular à criação de novos agentes e meios de mostrar e escoar seu trabalho.

Antonio de Dedé, Iemanjá, madeira policromada. Reprodução fotográfica autoria desconhecida.

A principal característica da obra de Antonio de Dedé é a expressividade do entalhe e a dramaticidade evidente em cada peça. Elas transmitem ao expectador sentimentos variados: da angustia ao humor irônico. São recriações inusitadas do mundo em que vive: animais, santos católicos e figuras humanas são as peças mais encontradas. Elas possuem cores e tamanhos variados, de 50 centímetros a dois metros de altura. O artista contava que não teve um aprendizado formal em arte; aprendeu sozinho observando seu pai trabalhar a madeira na “arte da carpintaria”. Desse olhar cotidiano trouxe a inspiração para criar a sua obra e a escrever sua própria história no mundo da arte brasileira. Antonio de Dedé atribuía sua habilidade a um dom; uma dádiva recebida, algo que veio da vontade de recriar o trabalho do pai.

Antonio de Dedé, título desconhecido, madeira policromada. Reprodução fotográfica Galeria Pontes (www.galeriapontes.com.br), São Paulo, SP.

Antonio de Dedé tem obras em importantes coleções particulares e museus pelo Brasil. Ele participou de exposições pelo Brasil e no exterior e suas peças são comercializadas em importantes galerias de arte em cidades como Maceió, Recife, Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre.

Considerado Patrimônio Vivo de Alagoas desde 2015, Antonio de Dedé faleceu no dia 16 de junho de 2017 em Arapiraca-AL, aos 63 anos.

Fonte:
REIS, D. Catálogo da exposição “Expressões na madeira: família Antônio de Dedé”, Sala do Artista Popular, Centro Nacional do Folclore e Cultura Popular, Rio de Janeiro, RJ, 2010.

 Antonio de Dedé, título desconhecido, madeira policromada. Reprodução fotográfica Galeria Pontes (www.galeriapontes.com.br), São Paulo, SP.

 Antonio de Dedé, título desconhecido, madeira policromada. Reprodução fotográfica Galeria Pontes (www.galeriapontes.com.br), São Paulo, SP.

 Antonio de Dedé, banco de duas cabeças, madeira policromada. Reprodução fotográfica Galeria Estação (www.galeriaestacao.com.br), São Paulo, SP.

Antonio de Dedé, título desconhecido, madeira policromada. Reprodução fotográfica Galeria Pontes (www.galeriapontes.com.br), São Paulo, SP.


Antonio de Dedé, título desconhecido, madeira policromada. Acervo Galeria Tina Zappoli, Porto Alegre, RS.


Antonio de Dedé, N. S. Aparecida, madeira policromada. Acervo Galeria Tina Zappoli, Porto Alegre, RS.


Antonio de Dedé, Sereia, madeira policromada. Acervo Galeria Tina Zappoli, Porto Alegre, RS.


Grupo escultórico de Antonio de Dedé. Acervo Galeria Karandash, Maceió, AL.

Conjunto de obras de Antonio de Dedé. Reprodução fotográfica: Projeto Sertões.

4 comentários:

  1. Prezados,
    Eu entro em contato com vocês na esperança de encontrar informações valiosas.
    Moro na França e um grupo me convidou para ir como intérprete ao Brasil à procura de alguns artistas que participaram da exposição "Histoires de Voir" que aconteceu na Fondation Cartier em Paris.
    Iremos às cidade citadas na exposição à procura dos artistas Aurelino dos Santos (Salvador-BA), Véio (Aracajú-SE), Antonio de Dede (Arapiraca-AL), José Bezerra (Buique-PE) e Cícero da Silva (Caruaru-PE). Entretanto eu não sei como entrar em contato com os artitas para possibilitar este encontro.
    Vocês podem me indicar alguma forma de entrar contato com eles? Algum email, telefone, endereço, galeria nas cidades? Ou mesmo algum agente deles. O objetivo desta família é de conhece-los, trocar experiências e também contemplar e possivelmente comprar algumas obras desses artista que tanto os fascinam desde a exposição.
    Agradeço desde já a ajuda.
    Atenciosamente,
    Camilla Barros

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    1. Cara Camilla,
      Eu tenho o telefone de Véio: (79) 9967-0436, de José Bezerra: (87)3855-2912 e de Antonio de Dedé: (82) 9648 3727.
      Att.
      APB

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    2. Nossa, muito obrigada! me ajudou muitíssimo!!!

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